O Criativo: corpo, experiência & bioescritas

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Gostaria de chamar à cena as assinaturas que estiveram, estão e estarão sempre presentes num livro, mesmo que não assinem embaixo de algum artigo. São os corpos diversos das interlocuções que animam potencialmente “o lugar onde nos encontramos” que é o título da imagem-garafunha da capa. Este campo de afetos, de vozes, de saberes está entre o céu e a terra como diz o ideograma: o criativo do I Ching que eu joguei para estar aqui.   IMG_2309
O comentário do hexagrama divide os dois pares de características mencionados no Julgamento em quatro diferentes atributos do poder do Criativo, cuja forma visível é o céu. O primeiro é o “sublime”, que se constitui como causa originária de tudo o que existe, o atributo mais importante e de mais vasto alcance do Criativo. A palavra chinesa que o designa, “Yuan”, significa literalmente “cabeça”.
Pois seria dessas forças potencialmente representadas por esta parte do corpo: a cabeça (da qual estamos tentados a nos envergonhar nestes tempos) que, unidas para o conhecimento e a troca, animam o desejo, a capacidade, o esforço, de se pensar o corpo, a experiência, a arte. Quando essas forças são animadas pelo afeto, o gosto, a alegria alimentam as veias, os músculos, as vísceras, e o coração: a coragem. Dentro da Universidade tal como está competitiva, egocêntrica, imunda e sem elevadores este corpo diverso trabalhava “numa zona autônoma temporária”,para roubar o título de Hakim Bey. Falo muito diretamente do Grupo de pesquisa Corpo & experiência- origem e causa do livro, falo dos encontros assistemáticos e divertidos nos quais fomos firmando amizade, tolerância, respeito por nossas diferenças. Às vezes também alguma tensão e desencontros. A professora ficava braba (como a mulher braba da Angélica de Freitas) e ladrava convocando por email com imagens assustadoras do filme O Chamado. Neste grupo, os componentes foram tomando sua forma plástica mais afirmativa, como diz ainda o hexagrama: As nuvens passam, a chuva atua, e todos os seres individuais fluem para suas formas próprias….Falo de Marcelo dos Santos, Daniele Ribeiro Fortuna (uma jovem cientista do nosso estado), Leonardo Davino, André Masseno já dentro IMG_2281da Universidade como professores. Falo de Gisele Sampaio, que deu o salto para o CCBB. De Fabiana Farias no exercício do corpo-maternidade, responsável (e irrenunciável) como criadora de nossa imagem visual, de Fernanda Scholnik que enfrentou Paris no frio para conhecer mais da Hilda Hilst que morou na Casa do Sol, de Paula Fernanda que, por sua vez, enfrentou Cobra Norato e me fez dela seu compadre Tatu. Dio – o poeta encarnado, essa pessoa admirável, suave, seríssimo e organizado que é apaixonado por Piva (pode isso?). Juliana Carvalho que enfrenta warhol, a flor de antipatia com a maior simpatia. IMG_2285Convoco também os novos integrantes, os que se juntaram a nós depois. Luiz Nadal e Diego Ferreira, tão próximos e diferentes. Com Nadal, aprendo um modo heterodoxo de orientação, em que comento algo fora da dissertação, como orientar? um perfil que ele escreve em paralelo – jogo especular e o temor que um dia faça meu perfil, com Diego tento captar o rosto dele, o gosto, ele, enquanto isso, sopra no espelho e embaça. Eu espero e confio nele. Ainda dizer de membros novíssimos do corpo: Ester Santanna e Pedro Calcavechia, os ics
mais belos da UERJ cada um com seu tempo; Ester em ritmo acelerado e Pedro com o tempo fora do tempo, o tempo do poema. “Eu agora não estou mais com medo, estou com Pedro”. Pois o conhecimento se gesta na “boa acolhida” nietzscheana, que a define como “a forma mais alta da aquiescência a ser alcançada”, “a paixão do sim por excelência”.
Diz o Criativo: Aqui se explica a palavra “sucesso”. O êxito da atividade criadora revela-se na irrigação, que faz com que todos os seres vivos germinem e brotem.
Convoco também para o autógrafo do livro, os corpos inspiradores de quatro artistas que nos alimentaram com experiências que vão do êxtase à da devastação. IMG_2343O corpo de André Masseno em todas suas performances: He or She, Outdoor corpo –machine e o Confete da índia. Demos com a performance O Confete da índia um salto, no sentido de um afetar o outro, querendo que salte também de seu escudo de saber, de seu conforto social ou de gênero. Foi com o corpo do André que experimentamos dar este salto. O salto da ìndia. Salto. Substantivo masculino, ação ou efeito de saltar; pulo, (1) movimento brusco, com expansão muscular, pelo qual o corpo se eleva do solo para ultrapassar certo espaço ou recair no mesmo lugar; (2) movimento de reflexão por efeito de queda numa superfície, ricochete (de um projétil); (3) espaço ou altura que se vence com um salto […] ; (4) queda d´água; (5) ato de sair à estrada para roubar, assalto, pilhagem saque; (6) mudança rápida de posição ou de situação; (7) (por extensão) transformação abrupta; (8) tacão de calçado; (9) intervalo, espaço de tempo; (10) fig. movimento vibratório, trepidação, agitação, palpitação; (11) cópula do cavalo ou touro padreação; (12) erro tipográfico [..]; (14)subida abrupta da voz fora de compasso; (15) qualquer intervalo melódico que ultrapasse a segunda; (16) rede para apanhar certos peixes […] (HOUAISS, 2001, p.2504). Digo então que a frase “O salto da índia” guarda a maioria destes sentidos como uma mina de guerra enterrada num solo instável, pronta para explodir em muitas direções: histórica, cultural, corporal, erótica, extática e de gênero. Se um corpo pode guardar um potencial transgressivo na aparente normatização e domesticação dos corpos contemporâneos, foi numa roda extáticaIMG_2286 em torno da ìndia do André que pudemos experimentar o excesso dionisíaco.
Três outros artistas se aproximaram também do grupo: Hugo Denizar, Artur de Vargas Giorgi e Hilan Bensusan. Invoco a presença do Hugo como memento mori, como homenagem. O evento Corpos Diversos foi pensado junto com Denizar, em algumas reuniões. Queríamos fazer na UERJ uma exposição do seu trabalho com bonecos catados dos carros alegóricos, mas ele adoeceu. A visita que eu e o Marcelo fizemos ao Hugo para colher o seu depoimento para o livro foi uma das experiências mais radiantes e violentas pelas quais passamos. Ele já se encontrava muito enfraquecido e conversou conosco deitado. No entanto, ao começar a falar, dele guardamos o olhar animado por uma fé incansável na arte como único modo de estar no mundo, forma rica de afirmação de saúde e combate contra a opressão da loucura, do preconceito, da violência temas de seus trabalhos. Assim como Hugo resgatou do lixo os bonecos da exposição Estado de concentração: A violência muda, resgato aqui a violenta experiência do irremediável da doença e da morte no seu corpo, mas, principalmente, a chama que o animava ali em
total presença. Nosso contato naquele dia foi rápido e impressionante. Saímos eu e Marcelo muito graves dali, como se tivéssemos tocado o secreto de um corpo, o que o anima. Eu tinha ido ao oculista de manhã, ao chegar à Uerj, e na volta para casa, estava tonta e não conseguia enxergar direito os sinais de trânsito. Certo, minha pupila fora dilatada ou pelo colírio ou visão da morte próxima. IMG_2318
Ao Artur de Vargas Giorgi devo um processo de escrita que é, para mim, um: sustenta aí no meu cotidiano, uma forma de saúde. As imagens das garafunhas e o modo de pensar a arte de Artur estiveram circulando entre nós desde 2012. A poética visual das garafunhas, de Artur de Vargas Giorgi dirige-se ao outramento com a “graça da coragem”, uma “força de levitação”, ou de “caminhar no alagado” com cuidado – como escrevi em outro lugar-, abertura para enfrentamento do furo, do oco, dos vazios/ pode ser o caminho de uma agulha que penetra e sai de restos de tecido, de algodão, de plástico-bolha, de materiais diversos, como diverso é o mundo, diversos são os corpos/ diversos e diferidos, neste modo são alinhavos, pequenas cicatrizes-memória/ garafunhas são também desenhos: corpos mínimos, minúcias que provocam, afetam, tocam o olho como cócegas de leve, carícia – sorriso irônico sustentando o medo, as dificuldades, as carências-querências/ traços, ranhuras em tabuinhas/ aqui e ali são frases samurais, mini escritas, grafadas à mão, sempre em minúsculas, nem títulos, nem comentários, são inscrições (em fuga…) desenhadas, poemas à parte, mas também poemas como parte/ se colagens, colam beijos de língua, como num flerte, mas, outras vezes, quando colam, grudam, prendem o sujeito numa poça/ quando estudos para sustentação da linha pensam uma arquitetura emotiva para o equilíbrio instável, para o que se pode romper a qualquer momento, fio de prumo de uma vida inteira desabável com um sopro/ experimentam linhas de força que podem agüentar o levíssimo de uma haste de flor, ou o pesadíssimo de toneladas dos carros conviteempilhados/ como “enxerto para uma vida feliz”, garafunhas suturam sem cicatrizar a ferida, basta prestar atenção nos laivos vermelho-sangue pressentidos como pele esfolada de algumas delas/ garafunhas são cuidado1 princípio de delicadeza.
Finalmente, refiro-me com afeto eletivo ao Hilan Bensusan, pai da criança revolução, filósofo na UNB e performer, que para mim é emblema do intelectual que virá, por vir, em devir para mudar as relações com o conhecimento: um intelectual encarnado no corpo (talvez o índio de Caetano Veloso, em plena forma física). Hilan baixou duas vezes entre nós: uma vez, travestido de Elizabeth Costelo (no teatro da UERJ) para indagar os gêneros, e depois como Galazia (aqui na Casa de Rui) quando nos convidava ao touch scream de sua pele : uma dermatologia especulativa. Hilan pensa além do pensamento, pensa para depois. Chamo Hilan “meu irmão pequeno” porque a gente sempre aprende com os irmãos mais novos, aqueles que vêm depois de nós para as trocas com o mundo inédito que percebem com mais facilidade – são os olhos investigativos sem os antolhos do vício de querer dizer o já dito. Gosto de compor mesas com ele nos Colóquios Filosofia e ficção: são as hilanas.
1 Todorov diferencia os cuidados, como virtudes cotidianas, das ações heróicas quando estuda o comportamento das pessoas nos campos de concentração. In. Em face ao extremo. São Paulo: Papirus, 1995.
Quero também registrar as vozes dos amigos muitos aqui presentes. Pessoas que admiramos como intelectuais, professores, escritores cujas vozes por leituras, por email ou em encontros para um café, ou pelo telefone nas manhãs desenham novas cartografias, apontam um caminho, ensinam. A Amizade estelar. A Gaia Ciência. Com os amigos constelação de afeto, confiança, solidariedade. O Corpo e a experiência devem muito ao que pensam, como agem, como escrevem. Sem dúvida o livro está compartilhado com eles a quem ofereço o número do ISBN para poderem relatar a autoria no Lattes: 978-85-7511-372-1.
Agradeço ao Ítalo, à Rosângela, ao Elmar, à Sílvia, Renate (equipe da EDUERJ) que cuidaram de dar corpo aos corpos diversos e à FAPERJ. IMG_2349
Aos que esperavam uma apresentação dos conceitos, do embasamento crítico, da metodologia, ofereço a sentença “arte do convívio”, nosso afeto, digo com Leonilson “voilà mon coeur” que constitui o endereçamento da arte. O saber para nós é o querer saber. Essa descrição é incompleta e insuficiente. Para todos os que estiveram conosco e chegaram junto conosco ao resultado livro, eu digo mudamos com vocês por causa de vocês, somos agora bioescritas.
Com o I Ching, concluo: O caminho do Criativo atua através da mutação e da transformação, de modo que cada coisa recebe sua natureza e destino verdadeiros, e permanece em acordo com a Grande Harmonia: eis o favorável e o perseverante.
Eis nossos corpos diversos, o lugar onde nos encontramos.

Ana Chiara

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Arquivo e corpo

Apresentação lida no lançamento do livro Corpos diversos (org. Ana Chiara, Marcelo Santos e Eiane Vasconcellos) (FCRB, 2015)
Marcelo Santos (UNIRIO)

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Arquivo e corpo. O tempo parece que fez bem para esta junção que se abrigou no evento Corpos diversos. Nós que estamos reunidos podemos ler agora, arquivadas, as presenças que fomos nesse lugar, ou, no início de tudo, na conferência de Raúl Antelo na UERJ, conferência-guia para todo o evento. Aqueles corpos diversos são, nesse dia de hoje, memória e texto, presença e livro. A conferência nos trazia o espectro a partir do episódio de Cardênio no Dom Quixote: talvez prenunciando o que somos de nós mesmos aqui e agora? Já que o arquivo habitou e habita essa casa em que estamos, a casa-arquivo dos nossos escritores, não causa espanto que lendo esses textos o espectro seja uma presença: espectros, e também os fantasmas do arquivo, esses encobertos que são solicitados a comparecer.
Quando começamos a pensar o evento de 2013, a diversidade deveria se espraiar nas imagens que as artes, a literatura e o arquivo poderiam oferecer do corpo. Interessava naquele momento que a convivência desses corpos provocasse um atravessamento de perspectivas e conceitos críticos. Estamos orgulhosos da nossa diversidade: quem agora ler os textos poderá provocar novas fricções. Como o corpo de Adriana Varejão, esses são textos desdobráveis ao infinito, nos mostrou Ângela Dias, e também dançáveis, “corpo-conceito, conceito-corpo – esse que IMG_2299ocupa lugar nos espaço – em termos de dança”, como nos provoca Márcia Tiburi. Não se surpreendam pelo fato de o livro criar diálogos surpreendentes: ao final do discurso da crise na arte que Evando Nascimento nos deu a escutar, Nietzsche parece saudar esses corpos-potências de Carolina de Jesus e Estamira, trazidos em última nota por Daniele Ribeiro.
Os fantasmas do arquivo não querem repousar, querem viver uma outra vida, querem ser como Lázaro, para quem a segunda vida não ganhou a letra da morte. Nos corpos diversos, os corpos de trabalho de Guimarães Rosa, a pele de Mário de Andrade, a mão insistente de Graça Aranha vieram e vêm agora existir entre nós. Mas como outros, diferentes, diversos do que foram, ou de como foram vistos. Numa nota da edição brasileira do texto “Força e significação”, Jacques Derrida nos informa que o crítico estruturalista Jean Rousset criticava a preferência de André Gide pelo Flaubert das cartas. Trago a crítica de Rousset para ouvirmos:
A correspondência de Flaubert é para nós preciosa, mas em Flaubert epistológrafo não reconheço Flaubert romancista; quando Gide declara preferir o primeiro, tenho a impressão de que escolhe o mau Flaubert, pelo menos aquele que o romancista se esforçou por eliminar. (ROUSSET apud DERRIDA, 1971, p. 51)
Não sei se se tratou de uma escolha de Gide, ou mesmo se Flaubert promoveu suficientemente essa eliminação. Talvez seja uma questão de coexistência, de fazer existir esses corpos, textos, imagens ao lado de outros: O Flaubert romancista e o das cartas, o Mário poeta e o Mário correspondente, os dois corpos de Graça Aranha, o escrito e o rabisco, a letra e o desenho, a impressão e a mão na escrita, a imagem e o canto. O que nos interessa enfatizar não é a eliminação de um pelo outro, como assinalava Rousset, mas o esforço, o gasto de energia na produção de IMG_2354vários corpos, inclusive os corpos contraditórios. Do século XVII, Gregório de Matos diz que sim, pois seu corpo religioso e seu corpo amoroso também sabem glosar e gozar com suas freirinhas…
Aqui bem abaixo de nós, Clarice, João Cabral, Drummond, Machado de Assis, Lúcio Cardoso, Jorge de Lima e tantos outros vão silenciosamente tecendo esses corpos outros, mas é preciso nossa mão para levantá-los: nesse momento a crítica é solidária, de mãos unidas. Mas ela também é um ritual: somos médiuns ou cavalos desses orixás? Ou feiticeiros de vodu? Sem os cabelos, dentes ou ossos dos mortos, temos seus arquivos, as cartas, os bilhetes, os empenhados manuscritos e rascunhos.
Estamos, autores, impressos. Fizemo-nos imprimir. Mas nós, organizadores, no momento de revisão desses textos, percebemos que muita coisa precisou ficar à sombra, modificada, apagada. O impresso dos corpos diversos deve convidar a que os leitores possam, inspirados pelos textos, procurar outras versões de nós mesmos: nas notas, nas frases sugestivas, nos ecos e suspensões de nossos textos, em que assinamos nome e sobrenome, em nossas minibiografias, outros Raul, Marcus, Ana, Hilan, outra Ana e mais outra, Márcia, Ângela, André, Marília, Rodrigo, Marcelo, Leonardo, Daniele, Evando são sempre possíveis de reinvenção, nossos corpos e grafias vazam para além dos nossos nome. Um de nós, reinventado, não está presente: nosso querido artista Hugo Denizart, imagem-guia dos Corpos diversos, figura agora num depoimento. Feito palavra viva, aqui lembrada e evocada, Denizart se interessava pelos corpos construídos, como dizia e diz numa frase – “Construir um corpo” –, frase arquivada no nosso livro. Construir um corpo como aquele produzido por Jorge de Lima na fotomontagem mostrada por Marília Rothier ou na iaroxum que Leonardo Davino nos apresentou, como Francesca Woodman e o corpo fulminante de Nadia Granados. Agradecemos a todos que aqui estiveram e estão, aos autores que se recriaram a partir de seus nomes e do nosso convite para que estendessem suas mentes e “mãos da escrita” aos corpos, aos nossos e a outros quando aqui vieram; agradecemos a Hugo Denizart. E a maneira de agradecer é fazê-lo reviver poeticamente. Como escreveu Renan: “o que se diz de si é sempre poesia”, se assim for, ouçamos a voz de Denizart fabricando seu corpo de poeta:
“Eu me sinto um novo homem…” (trecho do livro Conto do vigário, de Hugo Denizart).