Cuerpos Paganos: improvisos de jazz (exercício do curso Bioescritas)

No meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens. Allen Ginsberg

Então, meu querido, foi só agradecer como pássaro em voo gelado, que você tira a dor de dentro da camisa tal qual solo de jazz. Um olho lupa em cima dos meus escritos e aguarda a hora certa de falar. Nada disso afasta o temor de reconhecer seus sentimentos afundados na gelatina do seu peito. Se eu te pedisse cortarias tua orelha direita? Um choque brutal de realidade te acordaria desse sono profundo no lago onde boia a flor narciso? O umbigo é uma boca antiga. Foi Nuno quem disse….nenhum lance de acaso, a cerimônia toma conta de tudo, ritualizando o dia. Se eu derramo fel no meu fígado, nada muda.  Tudo foi combinado nos bastidores deste ano brutal e epilético.

Fauno lunar, sombras no porão… De nada vale este ar zonzo  de quem acordou e nem sabe se é domingo, se tem de se vestir e ir trabalhar. Se a veia estoura no cérebro. Se o sistema imunológico está perdendo terreno. Sempre tem o outro te espiando de esguelha e fala e fala e fala sem parar como se o jorro te convencesse.  Essa porra de sabedoria e arrogância penetrando o ouvido.  Onde encontro o Alegre no teu poema? No corpo do teu poema? No poema do teu corpo? Onde a técnica esconde a dor que doeria? Pois isso também importa. A maquiagem, a máscara, os longos cílios postiços. O modo genderfuck das emoções, dos estados animados são o alimento da poesia.

Você lá nas alturas dos sérios assuntos, eu aqui às voltas com esses cuerpos paganos…com  essas lascas poéticas. Um mundo sujo e feio. Ali do lado da universidade uma coleção de seres maltrapilhos fuma pedras em cachimbos. Penso em ti, ó poeta maldito, na crueldade de suas garras.  Penso no “Aí” estranhíssimo animal é o brasil. Esta preguiça  gorda que arranha ao se agarrar nos seus filhos. Se alimenta dos frutos do amaí e vem descendo como Ana Mendieta deixando o rastros de sangue nos muros.  E você tão ocupado em pontificar o certo e o errado neste campo difuso e mal iluminado.  Cem mil vezes eu perderei meus tesouros. Recorro à vida pobre, aquilo fora dos manuais e dos outdoors. Recorro à queimação dos lençóis.  Meus recursos são parcos. Vc  no absolutismo do rigor teórico.

Vc ,  me irrita.

 

(por Ana Chiara)

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